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Pixote – Ficção, realidade e tragédia

vida real

Dura Realidade

Ontem eu assisti pela décima vez, o filme “Pixote”, um dos filmes nacionais que mais fez sucesso fora do Brasil. Talvez seja só impressão, mas cada vez que eu assisto esse filme, eu tenho uma visão diferente.

A única coisa que não muda, é a história de Pixote, o resto do filme sempre me parece mais claro, a medida que o tempo passa, a medida que eu vou envelhecendo.

Uma detalhe que eu já tinha notado há muito tempo, são os exageros dos filmes nacionais, onde os marginais apresentam uma caracterização aparentemente forçada, quase uma caricatura. A minha visão dessa tragédia social era tão inocente que a história me parecia surreal, uma ficção, uma mentira.

Depois de ter assistido ao filme sobre a vida real de Pixote, eu fiquei com uma sensação de estar sendo enganado. Pensei comigo, uma das duas está mentindo, ou a ficção, ou a realidade.

Pixote é uma tragédia da vida real anunciada, eu diria até que o cineasta argentino/brasileiro Hector Babenco conseguiu dar uma visão bem mais realista do que nós brasileiros poderíamos ter, por estarmos perto demais dos fatos, iludidos demais pela mídia.

Babenco foi quase sádico em seu filme, onde um grupo de menores se envolve com a marginalidade, sobrevivendo do tráfico de drogas. Falando assim parece clichê, mas Babenco detalhou os fatos, tanto nos diálogos, quanto nas imagens.

As cenas bizarras, como foi o caso do aborto voluntário da personagem interpretada por Marília Pera, chega a chocar, mesmo mostrando claramente o estado psicológico da personagem, à beira da loucura. A personagem chega a insinuar um aborto de Pixote, numa clara crítica ao aborto e as famílias mal estruturadas.

Enquanto na vida real, o filme é romântico, mostrando um menino extremamente pobre que tira a sorte grande, fazendo um filme com um consagrado diretor que fica famoso no mundo inteiro. A fama de Babenco só pode ser notada quando, num seriado famoso, Lost, um dos personagens lamenta não ter trabalhado com o diretor, lembrando do teste que fizera.

Depois do filme, da fama, o menino “Pixote” vira a “galinha dos ovos de ouro”, é entregue para uma família especializada em carreiras infantis, os pais de Izabella Garcia e sua irmã, ambas ex-atrizes do seriado infantil “Sítio do pica-pau amarelo”.

Só faltou avisarem que o menino tinha família, tinha comunidade, tinha vida própria.

É claro que o menino não se adaptou, não se pode mudar toda a sociedade ajudando apenas um menino; pode ser que ele prefira sua vida real, nem todo mundo consegue interpretar o tempo todo – Quem disse que ele interpretava?

O menino retornou ao mundo real, onde já havia virado lenda, onde nunca mais teria sua realidade de volta.

Todos os “pobres coitados” de sua comunidade viam sua super exposição na mídia, imaginando-o muito rico. Todos queriam uma parte, afinal, Pixote levara sua miséria para as telas, explora toda a podridão da falta de infra-estrutura brasileira.

Pixote, na vida real, não teve a mesma sorte de seu personagem mitológico, a vida real foi muito forte para ele.

Para a sorte de nossa sociedade, ninguém conheceu Pixote na vida real, por isso a imagem que ficará sempre será a imagem das telas, aquele que sobreviveu, pelo menos durante as cerca de duas horas que duraram o filme.

Na vida real Fernando Ramos da Silva, o Pixote, morreu jovem, como sua realidade nada fictícia impõe, apesar de confundida com a ficção, apesar de ter flertado com ela, sua vida real nunca o perdoou.

By Jânio

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setembro 1, 2010 - Posted by | Cinema | , , , , , , , , , , ,

5 Comentários »

  1. […] * Publicado no MadeInBlog […]

    Pingback por Ver! | Blog | Pixote – Ficção, realidade e tragédia | setembro 1, 2010 | Resposta

  2. Meu caro amigo Jânio, boa noite!!!
    Não assisti tantas vezes como você, apenas duas… achei muito chocante… algumas cenas vão muito além da realidade… exploração com o intuito de impressionar ou aumentar em muito um fato real… uma verdadeira exploração da miséria, violência e falta de cidadania…
    “A violência não é monopólio da miséria, mas se nutre das condições de pobreza e na falta de cidadania”.
    Você retrata muito bem tudo isso no seu texto, excelente!
    Abraços e muita paz!!!

    Comentário por Pirollo | setembro 1, 2010 | Resposta

    • Olá Luis:

      Eu também achei meio forte, não sei se foi porque o diretor reuniu todos os problemas em um filme só. Os filmes da década de setenta eram ainda mais forte.

      A única coisa que eu sei é que o filme parece um tratamento de choque, mas é um dos maiores clássicos do cinema. Também é irônico o fato de Pixote não ter sobrevivido na vida real.

      ABS

      Comentário por Janio | setembro 2, 2010 | Resposta

  3. O caso do Fernando é emblemático mesmo E, além das reflexões mais óbvias, ainda nos leva a indagarmos: não existe pena de morte no Brasil?

    Pelo fatos, existe e é assinada quando algumas pessoas nascem. Sem juízes, sem advogados e sem apelações. E executada na hora certa, a mando de um destino cruel que lhe fora reservado. Morto a tiros, pela polícia, enquanto se escondia debaixo de sua cama. (foi assim, não?)

    Abraços

    Comentário por Jose Sidney Pereira | setembro 2, 2010 | Resposta

  4. Olá José Sidneys:

    Infelizmente foi.

    Em alguns momentos eu imagino que nós temos governo só para desfrutar das riquezas, enviando nosso dinheiro para o exterior.

    Além disso, fica claro, como você falou, que a justiça “Pixote”, é feita à revelia da justiça. Como uma dihittiana bem lembrou, na classe média, tem-se uma noção do que é certo ou errado, na classe baixa não se tem nenhuma noção de nada.

    ABS.

    Comentário por Janio | setembro 2, 2010 | Resposta


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